segunda-feira, 10 de novembro de 2008

ANÁLISE ÉTICA DE UM PROGRAMA DE TV

A ética é sempre um tema recorrente nas discussões que envolvem a mídia. Jornalistas, leitores, telespectadores e estudiosos em geral se debruçam em livros e nas discussões concernentes à ética midiática. Infelizmente, não há um senso crítico tal que faça com que a programação de rádio e televisão e notícias de jornal e internet, com caráter marcadamente antiético, sejam censuradas e banidas devido à pressão popular. Pelo contrário, o que há é a própria população consumindo os produtos da mídia com um senso crítico embotado, que por vezes se manifesta apenas nas superficialidades.

Mas a situação pode ser alterada se a educação voltada para a formação do homem ético seja ampliada ou iniciada. Para tanto acreditamos que este trabalho possa contribuir de alguma maneira, com a análise ética de um programa da TV BAND, do Grupo Bandeirantes de Comunicação. O programa se chama CQC – CUSTE O QUE CUSTAR, e é exibido em dois horários na referida emissora aberta: segundas-feiras, a partir das 22 horas, e sábados, a partir das 20 horas e 15 minutos.

O CQC é um formato de programa importado da Argentina. Estreou no Brasil este ano e possui o seguinte texto de apresentação em seu site:

"Sucesso em países como Espanha, Itália e Argentina, o CQC é um programa jornalístico irreverente, com uma equipe que pergunta aquilo que você sempre quis perguntar a um político ou a uma celebridade, mas nunca teve cara-de-pau e chance para isso.
As saias-justas, o silêncio que fala por si só e as crises de gagueira aguda dos entrevistados serão o foco desses verdadeiros homens de preto, que só precisarão de um microfone e seus óculos para invadirem as suas noites com o verdadeiro humor inteligente." (http://www.band.com.br/cqc)

É possível encontrar todas as matérias do programa em seu site oficial, à página http://www.band.com.br/cqc. O CQC está dividido nos seguintes quadros: Top Five, Repórter Egocêntrico, Proteste Já, Repórter Inexperiente e CQTeste, além de matérias diversas, como a cobertura humorística de um prêmio de música, uma cúpula de governantes ou um lançamento de filme pornográfico ou peça teatral.

O Top Five apresenta os cinco piores momentos da televisão brasileira, eleitos pelo CQC, na última semana antes do programa ir ao ar. Cenas como: “freira faz embaixadinha e chuta bola na câmera”, “ex-sargento muda de sexo” e “Kleber Machado volta a filosofar”.
No Repórter Egocêntrico, o repórter fala mais que o entrevistado e fica falando sobre sua própria vida.

O quadro Proteste Já é o serviço de utilidade pública do CQC. Os repórteres já foram responsáveis por denunciar descasos com deficientes físicos, investigar superfaturamento em prefeitura e o descaso com a coleta das fezes de cachorro em São Paulo.

O Repórter Inexperiente entrevista as celebridades de uma forma muito peculiar. Fingindo ser do interior e estar fazendo a entrevista como trabalho de faculdade, o repórter Danilo Gentili entrevista nomes como Agnaldo Timóteo, Leão Lobo e José Luiz Datena, de forma desengonçada, com pouco conhecimento sobre o entrevistado e aparentando estar muito nervoso.

CQTeste é um jogo de perguntas e respostas no qual uma celebridade por semana participa. Já jogaram Nando Reis, Pámela Butt, Zé do Caixão, Agnaldo Timóteo, Neguinho da Beija-Flor e outras personalidades, que ao final do teste fazem parte de um ranking das celebridades mais inteligentes.

A missão agora será a de analisar eticamente o programa de televisão CQC – Custe o que custar. Utilizaremos o Código de Ética dos Jornalistas como base para a análise.

O primeiro capítulo do Código de Ética trata do direito à informação. Iniciaremos a análise do CQC com o artigo 2º, que reza:

“Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público.
III – a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão.
IV – a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não-governamentais, é uma obrigação social”.

Com relação a este artigo, o CQC cumpre seu papel de divulgar informações de interesse público com o quadro Proteste Já, onde acontecem investigações e denúncias. Foi o caso da ida do repórter Rafinha Bastos à cidade de Mairiporã para investigar o superfaturamento na merenda escolar comprada pela prefeitura. Rafinha Bastos conversou com vereadores da cidade em questão, que informaram os preços praticados pela prefeitura municipal. Os vereadores apresentaram documentos mostrando a compra de produtos para a merenda escolar com superfaturamento de até 70% entre o preço praticado no mercado no varejo e o preço que o prefeito pagou no atacado. Rafinha Bastos seguiu conversando com os vereadores e foi até a casa do prefeito, que fica num andar superior de um supermercado onde os preços são mais baratos do que os da prefeitura.

O repórter foi mal recebido por funcionários da prefeitura, os quais tentaram intimidar com ofensas verbais e ameaças de agressão física ao jornalista. Rafinha Bastos foi recebida por Edlene Aparecida, secretária adjunta de educação e cultura da prefeitura de Mairiporã, que não conseguiu explicar com clareza e convicção os preços superfaturados da compra de merenda de Mairiporã. Na primeira tentativa, Rafinha Bastos não conseguiu ter acesso ao prefeito, entretanto falou em megafone na porta da casa deste, bradando para que o administrador municipal prestasse mais atenção aos preços da merenda. Algumas semanas depois a produção do CQC voltou a Mairiporã e conseguiu falar com o prefeito, que não conseguiu convencer com as explicações concedidas. A matéria termina e Rafinha Bastos apresenta um documento do Ministério Público mostrando que o programa pediu uma investigação formal do caso.
Desta feita, o quadro Proteste Já cumpre o supracitado no código de ética, uma vez que se pautou pelo interesse público.

Entretanto, houve uma entrevista do jogador de futebol Ronaldo apresentada no CQC que fugiu ao Código de Ética dos Jornalistas. Vamos ao artigo 12:

Art. 12. O jornalista deve:
V – rejeitar alterações nas imagens captadas que deturpem a realidade, sempre informando ao público o eventual uso de recursos de fotomontagem, edição de imagem, reconstituição de áudio ou quaisquer outras manipulações;

A entrevista exibida no programa que violou este inciso se deu da seguinte maneira: Ronaldo concedeu uma entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, falando a respeito de seu envolvimento com travestis no Rio de Janeiro. Marcelo Taz, apresentador do CQC, anunciou na segunda-feira, dia em que o programa é exibido ao vivo, que Ronaldo havia concedido uma entrevista exclusiva ao CQC. Quando a entrevista foi ao ar, percebemos que era a mesma exibida pelo Fantástico. Foi feita uma montagem na qual Marcelo Taz parecia mesmo estar na casa do jogador de futebol conversando com ele, só que, por se tratar de uma edição, as perguntas feitas por Taz eram respondidas de uma maneira totalmente diferente do contexto original. O CQC não avisou que a entrevista era uma montagem, o que causou dúvidas sobre a veracidade das informações.

Não houve respeito com a figura de Ronaldo, pois a matéria humorística colocou Ronaldo como alvo de chacota, violando o inciso III do código de ética: “tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar”.

O Código de Ética dos Jornalistas é desrespeitado todos os dias em nosso país. Há quadros e programas humorísticos, como o Sorria, você tá na Record e Pânico na tv, que ridicularizam as pessoas, expondo suas intimidades ou fazendo brincadeiras bizarras nas ruas das cidades.
Fazer humor não parece ser tarefa fácil. Porém não podemos permitir que as emissoras de televisão façam uso do jogo baixo para aumentar seus faturamentos.
O programa tratado neste trabalho, o humorístico CQC, parece ser uma alternativa ao lixo produzido cotidianamente na televisão. O CQC tem a vocação para ser um humor inteligente de fato. Por isto os elogios e as críticas escritas aqui para o programa devem servir para uma reflexão a fim de torná-lo o mais próximo possível do Código de Ética.

2 comentários:

Luciano Costa disse...

O CQC é um bom programa, mas tem que tomar cuidado pra não ir para o esculacho...a entrevista montada com o Ronaldo foi claramente fake, uma piada. O problema é quando, ao entrevistar algum políitco, acabam se excedendo nas provocações. Eu sou a favor do que eles fazem, de provocar e tal, mas quando perdem a mão fica constrangedor...

homero baco disse...

O CQC é bom pra carai. Claro q eles erram a mão uma vez ou outra. É disparado oq temos de melhor na TV aberta.

Agora, não sei se cabe a sua análise o programa do Pânico naum. Aquilo não se pretende jornalismo, é um monte de gente fazendo bagaceira e pronto.